quinta-feira, 17 de julho de 2014

Prelúdio


Eram mais ou menos cinco e meia da tarde, e o pôr-do-sol banhava todos os edifícios cinzas do centro da cidade com seu tom avermelhado, dando vida a uma paisagem morta e inapetente. Os transeuntes, todos andando em fileiras como carreiras de formigas voltando para a casa com o alimento, pouco pareciam se importar com a dádiva que o céu lhes oferecia. Continuavam andando indiferentes, com seus fones de ouvido e celulares, entediados com suas próprias vidas e rotinas.
Em uma das janelas daquela paisagem tão destoante, destacava-se uma silhueta em uma das milhares de janelas dos edifícios cinzentos. Um rapaz observava aquilo pensativo enquanto acariciava seu bigode e fumava um cigarro. Parecia de fato muito interessado naquela cena grandiosa e vazia, como se houvesse muito mais ali do que parecia haver.
Os Dias que eu Não Andei de Bicicleta em Santa Teresa

Lembro-me bem
dos dias que não andei de bicicleta em Santa Teresa
entrando em ruelas e descendo ladeiras.
Parece que foram ontem.

O maço de cigarros que não comprei
na banca de jornal do Guimarães
junto com as fotos que não tirei na chácara do céu
Parece que já faz muito tempo

Aqueles amores que eu não vivi,
o pôr do sol que não observei
enquanto tomava um vinho tinto barato
comprado perto dos correios
incomodando vizinhos com sussurros e risadas
Parece que faz parte do meu passado.

Ah, os tempos mudaram
Quanta saudade.